A importância da variabilidade glicêmica no diabetes mellitus gestacional

Em 2008, surgiram os primeiros trabalhos sobre a variabilidade glicêmica. Nestes, observou-se que uma grande variabilidade dos níveis glicêmicos, atingindo picos e vales ao redor de um valor médio, pode ser mais deletéria para a função endotelial, e levar a um maior estresse oxidativo, do que a média das glicemias.

14 de fevereiro de 2014 | Autor: Centro de Diabetes Curitiba

 

O diabetes mellitus gestacional (DMG) é definido como uma intolerância à glicose, de graus variados de intensidade, que aparece ou é diagnosticado pela primeira vez na gestação, podendo ou não persistir após o parto. A prevalência é de aproximadamente 7% das gestações. Existe um risco de morbidade e mortalidade para a gestante e para o feto. Sendo assim, é necessário um rastreamento para detecção precoce desta doença e tratamento intensivo, evitando assim suas possíveis complicações.

Os métodos para avaliação do controle glicêmico se dividem em métodos tradicionais (testes de glicemia, frutosamina e hemoglobina glicada), os métodos mais recentes (monitorização contínua da glicose intersticial – CGMS) e os novos métodos propostos (perfil glicêmico de sete pontos, glicemia média semanal – GMS e variabilidade glicêmica – VG).

Em 2008, surgiram os primeiros trabalhos sobre a variabilidade glicêmica. Nestes, observou-se que uma grande variabilidade dos níveis glicêmicos, atingindo picos e vales ao redor de um valor médio, pode ser mais deletéria para a função endotelial, e levar a um maior estresse oxidativo, do que a média das glicemias.

A hemoglobina glicada é um método de avaliação de médio prazo e que não reflete adequadamente a variabilidade glicêmica. Assim, existe a necessidade urgente do desenvolvimento de métodos confiáveis, de baixo custo, de fácil implantação e utilização, para a avaliação em curto prazo do controle glicêmico e da adequação da conduta terapêutica.

Um estudo com 30 gestantes divididas em dois grupos: grupo “controle” (tratamento e acompanhamento do DMG padrão) e grupo “casos” (tratamento e controle através do perfil de 7 pontos, GMS e VG) foi feito com o objetivo de identificar diferenças nas taxas de complicações. Ao final da gestação, 86,6% das pacientes do grupo “controle” e 80% das pacientes do grupo “casos” estavam com o controle glicêmico dentro dos objetivos a serem atingidos, sem diferença estatisticamente significativa entre os grupos. Isso indica que não houve diferença no número de pacientes em que o diabetes não estava controlado e também pode significar que o tratamento e modo de acompanhamento atualmente realizado em pacientes com DMG protegem de modo razoável as pacientes e seus conceptos.

As complicações maternas associadas com um diabetes gestacional não controlado foram semelhantes entre os grupos. Já as complicações ecográficas foram mais freqüentes no grupo “controle”. As complicações peri-natais do DMG e intolerância a glicose são bastante conhecidas na literatura. Quando observado o número de recém-nascidos que tiveram alguma complicação, foi vista uma diferença significativa entre os grupos – oito ocorrências no grupo “controle” contra uma do grupo “casos”. Na comparação individual de cada complicação, o número de recém-nascidos GIG (Grande para Idade Gestacional) foi estatisticamente maior no grupo “controle”. Dessa forma, o crescimento fetal pode ser considerado um parâmetro complementar de avaliação do controle glicêmico.

O nível de glicemia de jejum e pós 75 gramas no TOTG, o IMC inicial e a quantidade de insulina utilizada não foram diferentes entre os grupos, assim, podemos afirmar que a gravidade do DMG foi semelhante entre eles. Somado a essa não diferença, a taxa de adesão e o número de pacientes que estavam com o controle glicêmico dentro do alvo foram semelhantes entre os grupos. Dessa maneira, podemos inferir que uma variabilidade glicêmica possivelmente menor no grupo “casos” pode ter no mínimo contribuído para uma menor taxa de complicação peri-natal.

O perfil de sete pontos (com o cálculo posterior da GMS e da VG) foi um método prático, de fácil implementação, com excelente taxa de adesão das pacientes, e que proporcionou uma melhor visualização dos níveis glicêmicos.

O estudo demonstrou que com a utilização do novo método ocorreu uma menor taxa de complicações peri-natais quando comparado com o seguimento e o tratamento padrão, apesar do número relativamente pequeno de pacientes. O fato sugere que uma maior varibilidade glicêmica pode causar efeitos deletérios para o feto.

É um estudo pioneiro que utilizou um novo método de avaliação do controle glicêmico em pacientes com DMG, como ferramenta de adequação terapêutica. Os resultados favoráveis justificam a realização de estudos maiores, necessários para que esta estratégia possa ser futuramente recomendada.

Referências:
1. Costa T.M.R.L.; Detsch J.M.; Rea R. Pimazoni A. Glycemic Variability and Mean Weekly Glucose in the Evaluation and Treatment of blood glucose in Gestational Diabetes Mellitus; Evidence for lower Neonatal Complications. Diabetes and Metabolism. 2:6, 2011
2. Monnie, L. and Colette, C. Glycemic Variability – Should We And Can We Prevent It? Diabetes Care 31(Suppl.2):S150-S154, 2008.
3. Ceriello, A., Esposito, K., Piconi, L., et al. Oscillating Glucose Is More Deleterious to Endothelial Function and Oxidative Stress Than Mean Glucose in Normal and Type 2 Diabetic Patients. Diabetes 57:1349-1354, 2008.
4. Pimazoni-Netto, A., Zanella, MT., Rodbard, R and Pires, AL. Rapid improvement in Glycemic Control, Variability and A1c within 6 weeks using 7 point glycemic profiles 3 days per week and weekly clinic visit: a randomized controlled trial in Type 2 diabetes. Diabetes, June 2010; 59(suppl 1): A134 (Abstract 497-P).

Artigo da médica endocrinologista Tatiana Munhoz da Rocha Lemos Costa, do Centro de Diabetes Curitiba.

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