A dieta ideal para o tratamento do diabetes – Entrevista com a nutricionista Deise Regina Baptista

Em sua entrevista, a professora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal do Paraná discorreu sobre a questão do índice inflamatório da dieta, a importância da contagem de carboidratos, o papel das gorduras e das proteínas no controle glicêmico, entre outras questões relevantes.

1 de fevereiro de 2013 | Autor: Diabetes em Debate

 

A atual coordenadora do Departamento de Nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes, Deise Regina Baptista, falou com exclusividade sobre o tema à Rede Social Diabetes em Debate. Em sua entrevista, a professora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal do Paraná discorreu sobre a questão do índice inflamatório da dieta, a importância da contagem de carboidratos, o papel das gorduras e das proteínas no controle glicêmico, entre outras questões relevantes. Acompanhe o bate-papo.

Rede Social Diabetes em Debate: Como avaliar a alimentação e medir o índice inflamatório da dieta de um paciente com diabetes tipo 2? Como o paciente deve ser orientado sobre esses aspectos pelo médico que o acompanha?
Dra. Deise Regina Baptista: A inflamação crônica de baixa intensidade está presente em vários estágios das doenças crônicas não transmissíveis, incluindo as cardiovasculares, a obesidade, o diabetes melito, entre outras. Estudos observacionais e ensaios clínicos indicam que a dieta desempenha importante papel na redução do risco dessas doenças. Da mesma forma, há uma associação na composição de macronutrientes da dieta com os níveis de marcadores inflamatórios. Sugere-se que os padrões dietéticos caracterizados por elevado consumo de alimentos de alto índice glicêmico, pobres em fibras e ricos em gordura trans causem ativação do sistema imune inato, levando à excessiva produção de mediadores pró-inflamatórios, com concomitante redução dos anti-inflamatórios. Apesar de os resultados serem controversos, a adoção de hábitos alimentares saudáveis, com redução da ingestão de gordura (em especial as trans e saturadas), o aumento do consumo de frutas, hortaliças e cereais integrais podem estar associados com a melhora do estado inflamatório subclínico.

R: Há um consenso, na comunidade médica, sobre os alimentos que as pessoas com diabetes tipo 2 devem evitar? O açúcar é o único vilão?
Dra: Há um consenso sobre a importância de que a alimentação de pessoas com diabetes seja capaz de fornecer todos os nutrientes necessários para o corpo humano, promovendo seu crescimento e desenvolvimento, manutenção dos tecidos, resistência a doenças, além de saúde e bem-estar. Em geral, as recomendações de ingestão de nutrientes (carboidratos, proteínas, gorduras) desta população não são diferentes da população em geral (pessoas sem diabetes). A estratégia de contagem de carboidratos (CHO) vem sendo utilizada desde 1935 na Europa, porém, somente em 1994 a ADA recomenda a técnica. No Brasil, este método começou a ser usado em 1997 por alguns grupos isolados e somente em 2002 a SBD recomendou a técnica como uma estratégia nutricional possível de ser implantada no Brasil. Assim, atualmente já sabemos que o açúcar não é o único vilão para o aumento da glicemia, mas sim a quantidade de CHO ingerida ao longo do dia, independente da fonte, ou seja, se da ingestão de alimentos do grupo do amido, das frutas, leite ou açúcar. O papel do nutricionista é um dos mais relevantes no acompanhamento da pessoa com DM em qualquer faixa etária e com ou sem complicações. Infelizmente, ainda existem conceitos errôneos (como proibir a ingestão de doces) no que se refere à nutrição e DM e, na prática clínica, observa-se que recomendações nutricionais com pouco ou nenhum respaldo em evidências continuam sendo usadas.

R: Ainda sobre a questão da contagem de carboidratos. Na sua opinião, vale estabelecer metas fixas?
Dra: O seguimento de um plano alimentar adequado às necessidades individuais da pessoa (de acordo com o peso, sexo, atividade física, idade) e a contagem de CHO é um aspecto muito importante do tratamento. Pode ser usada para pessoas com DM 1 ou DM 2. A diferença é que para a pessoa com DM 2 as cotas de ingestão de CHO deverão ser fixas, uma vez que não há ajuste de doses dos hipoglicemiantes orais de acordo com o que se come em cada refeição. Já para as pessoas com DM 1 e que utilizam o tratamento com múltiplas doses de insulina de ação ultra rápida (tratamento intensificado do DM) os ajustes podem ser diários e podem anteceder as refeições, ou seja, as doses de insulina serão determinadas de acordo com os alimentos que serão consumidos na refeição. De forma geral, é recomendável que a prescrição do plano alimentar com contagem de CHO seja feita por um nutricionista experiente em tratamento de pessoas com DM, a fim de individualizar o tratamento e estabelecer metas realistas para peso e ingestão alimentar.

R: Qual é a importância de não se usar uma dieta pronta para o controle do diabetes tipo 2?
Dra: O seguimento de um plano alimentar adaptado às necessidades e individualidades de cada paciente é a chave para a adesão ao tratamento. Um plano alimentar baseado nas preferências alimentares, hábitos culturais e religiosos, e à situação financeira do paciente é um grande passo para a adesão às recomendações dietéticas, que devem ser seguidas por toda a vida do paciente e não momentaneamente.

R: É importante que a dieta prescrita esteja adequada ao estilo de vida do paciente e também ao seu tipo metabólico?
Dra: Sim. Diante da complexidade dos temas de nutrição, é importante que o nutricionista integre a equipe multidisciplinar, a fim de que todos compartilhem conhecimentos, se conscientizem da importância da terapia nutricional e apoiem o paciente na árdua tarefa de alterar seu estilo de vida. O plano alimentar deve respeitar as necessidades nutricionais (se criança, adolescente, adulto, idoso, grávidas), hábitos alimentares, estado fisiológico, atividade física praticada, medicação em uso e situação socioeconômica.

R: Na sua percepção, qual é o grande desafio no momento de formular uma dieta para o diabético?
Dra: Ouvir o paciente, entender seu momento em relação à doença e a sua motivação para o seguimento de um plano alimentar e de outras orientações que se façam necessárias, como contar carboidratos, reduzir/ganhar/manter peso, reduzir ingestão de gorduras, fracionar as refeições, ser ativo, cuidar da saúde mental, monitorar taxas como a glicemia etc.

R: Quando é diagnosticado o pré-diabetes em um paciente, quais cuidados devem ser tomados, em relação à alimentação? É necessário prescrever uma dieta restritiva?
Dra: Em indivíduos em risco de desenvolver DM 2 deve-se estimular mudanças de estilo de vida a partir de programas educativos, baseados em perda moderada de peso corporal e prática semanal de atividade física (150 min/semana). O estabelecimento de um plano alimentar para controle da glicemia associado à mudança no estilo de vida, incluindo a atividade física, é considerado terapia de primeira escolha. O plano alimentar deve ser individualizado, fracionado (para evitar flutuação glicêmica), com quantidades de energia (calorias) que promovam o alcance de peso adequado; restrição da ingestão de gorduras saturadas para alcance de um perfil lipídico dentro das metas (colesterol total, LDL, HDL e triacilgliceróis); rico em fibras.

R: Uma mudança efetiva nos hábitos do paciente pode, de fato, reverter o quadro do pré-diabetes?
Dra: Largar o sedentarismo e alimentar-se de forma saudável pode prevenir em 58% dos casos o aparecimento do diabetes. A atividade física é fator fundamental tanto na prevenção quanto no tratamento do diabetes, desde que praticada de maneira regular e moderada. Pessoas que têm antecedentes familiares e realizam exercícios físicos conseguem retardar o aparecimento da doença e diminuir as chances de ter complicações. O sedentarismo, ao contrário, favorece o aparecimento precoce tanto do diabetes quanto de comorbidades. Além disso, os exercícios físicos têm relação direta com o metabolismo. A atividade física diminui a necessidade da insulina e aumenta a tolerância à glicose. Já o seguimento de um plano alimentar balanceado é atitude preventiva do DM (mantém níveis glicêmicos e de lipídios adequados e evita o ganho de peso). Por outro lado, dieta não deve ser sinônimo de privação. Deve significar uma maneira saudável de se alimentar, apenas isso.

R: Uma vez que uma dieta livre de açúcares não corresponde necessariamente e uma dieta de baixa caloria, o obeso diabético deve buscar o emagrecimento ou evitar os açúcares?
Dra: O indivíduo obeso deve seguir um plano alimentar saudável com quantidades de calorias que proporcionem perda de peso sustentável. Deve associar a prática de exercícios físicos regulares para a manutenção do peso após a redução. A restrição de açúcar é vantajosa, uma vez que é um alimento rico em calorias (1 g fornece 4 kcal). A substituição do açúcar pelo adoçante (edulcorante) é indicada para redução calórica da dieta.

R: Na sua opinião, quando a intervenção cirúrgica no tratamento da obesidade em portadores do diabetes tipo 2 é recomendável?
Dra: A cirurgia bariátrica (CB) pode ser considerada para diabéticos tipo 2 com IMC (índice de massa corporal) > 35 kg/m2 especialmente se o diabético apresentar comorbidades de difícil controle com a terapia farmacológica, alimentar e estilo de vida saudável. Os pacientes submetidos a qualquer técnica cirúrgica ou endoscópica necessitam de monitoramento multidisciplinar em períodos pré e pós-operatório, por exemplo, por tempo indeterminado. Dependendo do procedimento cirúrgico, a CB tem proporcionado normalização total ou parcial da glicemia em torno de 55 a 95%. Ao mesmo tempo, poderão ocorrer deficiências nutricionais como hipovitaminoses, déficit de minerais, osteoporose e mais raramente hipoglicemia severa, decorrente da hipersecreção de insulina.

R: Sabemos que há uma relação entre o consumo de gorduras saturadas e o desenvolvimento da síndrome metabólica e do diabetes. Porém, é possível explicar como as gorduras afetam o controle glicêmico?
Dra: O aumento da síndrome metabólica tem sido verificado no mundo inteiro, inclusive em crianças e adolescentes, devido ao ganho de peso precoce. O consumo de gorduras, principalmente as saturadas, leva à resistência insulínica, ou seja, há uma reduzida sensibilidade dos tecidos à ação da insulina. As células não respondem adequadamente ao estímulo da insulina e isso leva a diversas consequências. No Brasil, em um estudo realizado com uma amostra probabilística de adolescentes de escolas públicas, foi observada a presença de alterações metabólicas naqueles com maior resistência à insulina e com sobrepeso. O tratamento da síndrome metabólica e do diabetes melito tipo 2 em adolescentes deve priorizar a modificação no estilo de vida, tendo como meta a perda ponderal e o aumento da atividade física. O incentivo à alimentação saudável, a diminuição de refrigerantes e a ingestão de alimentos ricos em gorduras saturadas e trans, colesterol, sódio, além do aumento da atividade física, promovem benefícios no controle glicêmico, na dislipidemia e na pressão arterial. A monitoração da glicemia pode ser usada para avaliar ajustes nas refeições e para ver se é necessária a medicação, além da mudança no estilo de vida.

R: Da mesma forma, como as proteínas afetam o controle glicêmico?
Dra: Mesmo não elevando a glicemia como os CHO, as proteínas devem ser contabilizadas quando ingeridas em quantidades excessivas (ex: dia do churrasco).Isso porque cerca de 35 a 60% das proteínas ingeridas é convertida em glicose.

Entrevistada: Deise Regina Baptista

Fonte: Diabetes em Debate/Janeiro 2013

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